O impulso pela divulgação de fatos criminosos pela mídia capixaba, quase nada diferente da mídia nacional, por vezes ainda me surpreende.

Respeito o trabalho dos jornalistas e sempre que possível, desde que não atrapalhe o meu serviço, me esforço para ajudar na transmissão de informações úteis, mas sempre respeitando a decisão das pessoas, sejam os presos, sejam as vítimas, no que tange aos seus direitos de imagem e segurança.

Claro que o assunto é demasiadamente complexo, mas aqui somente quero deixar uma decepção que tive com a mídia capixaba nos últimos dias, em um caso de um cidadão que estava com seu filho pequeno dentro do carro e foi abordado por um vagabundo que lhe queria roubar uma quantia em dinheiro que havia acabado de sacar do banco alguns minutos antes.

Fiquei transtornado com o fato de que a mídia publicou o endereço do estabelecimento comercial da vítima, postou fotos do local, informou de forma detalhada qual o carro da vítima (marca, modelo e cor), disse que a vítima também era dona de outro estabelecimento comercial do mesmo ramo (informando o município – só faltou dizer o endereço também), que sacava dinheiro para pagar salários dos funcionários, que utiliza uma agência bancária no bairro Laranjeiras, município da Serra para os saques e que escondia o dinheiro embaixo do tapete do carro.

E o pior, ainda consta na matéria uma suposta declaração da vítima, de não se arrepender: “Se fosse preciso, faria de novo”. Tal informação é no mínimo infeliz para a matéria. Pode até não parecer, mas bandidinhos também lêem jornais para saber a repercussão de seus atos. E agora sabendo que a vítima tem carro importado caro, é dono de mais um restaurante e que irá reagir na próxima ação, eles saberão que já é para chegar atirando. E tal matéria acaba incentivando que outras pessoas, mesmo desarmadas, reajam a crimes nos quais o criminoso se encontra com arma de fogo.

Acredito que há informações que não necessariamente são importantes para a manutenção da qualidade da matéria. Qual o papel da imprensa ao noticiar crimes? Não seria um ponto extra para a matéria se o jornalista e seu editor tivessem se preocupado em dar dicas e sugestões aos leitores, a fim de diminuir a chance de serem vítimas de roubo?

Algumas dicas que poderiam ter sido divulgadas na matéria:

– Realizar transferências bancárias para pagamento de salários. O custo para o empreendedor é baixíssimo e em algumas vezes gratuito (dependendo do banco);

– Evitar reagir a assaltos quando se tiver a certeza de que o bandido se encontra armado;

– Não divulgar informações pessoais para a imprensa. A chance de que tais dados sejam publicados é muito grande;

– Quando for a banco sacar quantias relevantes, solicitar apoio de algum amigo, de uma empresa de segurança ou acionando o 190 (não sei dizer se há algum serviço neste sentido por parte da PMES, mesmo havendo pagamento por meio de DUA para os cofres públicos – taxa de serviço – vale a consulta);

– Prestar bastante atenção nos arredores quando estiver em via pública, agindo de forma pró-ativa quando da percepção de algum perigo.

Estas são somente algumas dicas básicas de segurança e que poderiam ter sido exploradas como forma de agregar mais valor à notícia.

Por questões de segurança da referida vítima não vou postar links das matérias que citei e não vou dar mais detalhes sobre o caso.

O papel da imprensa ao noticiar crimes
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